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segunda-feira, agosto 08, 2011

Prefeito de Coari confirma não ter dúvida de que foi vítima de um crime de pistolagem

Após ser baleado na última sexta-feira (5), o prefeito de Coari comentou o ocorrido e também falou sobre a morte do prefeito Odair Geraldo, em 1995, da qual responde a acusação de assassinato

JÚLIO PEDROSA
Arnaldo Almeida Mitouso (Antonio Menezes)
 
Ele literalmente nasceu de novo. Baleado no pescoço em um atentado ocorrido, na noite da última sexta-feira, o prefeito de Coari, Arnaldo Mitouso (PMN), recebeu ontem, com exclusividade, a equipe de reportagem de A CRÍTICA, para uma entrevista em que pode externar com mais “tranquilidade” as impressões sobre o que lhe aconteceu. Ainda assustado, ele confirmou não ter dúvida de que foi vítima de um crime de pistolagem - modalidade que tem se tornado cada vez mais frequente no Brasil (“em menor proporção no Amazonas”) por conta de motivações políticas.
“Fui vítima de atitude covarde. Até então, acreditava que tinha adversários políticos, hoje vejo que tenho inimigos”, resumiu, se dizendo confiante no trabalho da polícia na busca aos responsáveis pelo crime. Deitado em seu quarto, na companhia de dois dos cinco filhos e do segurança Celidônio Sebastião Aires da Silva, 52, de quem é amigo há 22 anos -  e com quem estava no momento do atentado -, Mitouso relembrou os tiros que sofreu em 1995, quando da morte do então prefeito Odair Carlos Geraldo - crime do qual foi acusado e apontado como autor, mas nunca comprovado. Falou de como encontrou Coari, ao assumir em 2009, depois da cassação do prefeito e vice-prefeitos -, e da disposição em concorrer à reeleição. “Não vou me acovardar diante de uma atitude covarde”, garantiu ele.


O senhor pode descrever o que aconteceu na sexta-feira?
Cheguei à tarde de Coari, por volta das 16h. Vim para casa e às 21h sai pra jantar com Celidônio (Celidônio Aires, segurança pessoal). Estivemos no Centro e ao retornar, por volta de 23h30, passando da entrada do Aeroporto, e já próximo da entrada do Novo Israel, ouvi uma zoada que imaginei poderia ser alguém jogando uma pedra ou que tenha batido por trás do carro. Eram os primeiros tiros. Quando olhei e percebi o vidro trincado, vi que era bala e que havia  sentido um choque nas costas. Passei a mão e vi sangue. Nesse momento, um carro passa na nossa frente com alguém, que estava no banco de trás, atirando. Mesmo ferido, Celidônio continuou dirigindo. Não dava pra ir ao pronto-socorro, porque poderiam nos seguir. Viemos para casa e a sala ficou cheia de sangue. Ligamos para a Polícia e tivemos atendimento.


Em 1995, próximo do Dia dos Pais, ocorreu o crime que vitimou o prefeito Odair Carlos Geraldo. O senhor foi acusado. Hoje, passados 16 anos, ocorre esse atentado. A polícia pode trabalhar com a hipótese de vingança?
O que aconteceu agora é totalmente diferente do que aconteceu no passado. Lá foi uma questão mais centralizada. Não foi pistolagem.


Qual a diferença entre as situações?
Em 1995, estava como vereador e presidente da Câmara e fazia oposição ao governo municipal, e muita gente não aceita esse tipo de comportamento. Acha que todo parlamentar deve simplesmente bater palma para o Executivo. Eu não entendo dessa forma, tanto que tenho os opositores em Coari e acho que a oposição é necessária até para ajudar o governante a ficar alerta e fiscalizar mais os recursos públicos. Naquela situação, houve um confronto. Estávamos num local e fomos agredidos. Houve troca de tiros e fui baleado também. Levei dois tiros, um deles também no pescoço.
Dessa vez, houve uma emboscada, um modus operandi cada vez mais frequente no Brasil.
Uma atitude covarde. Até então pensava que só tinha adversários políticos. Agora tenho que afirmar que tenho inimigos políticos.


O senhor se arrepende de ter entrado para a política depois do que ocorreu?
Sempre falei que se soubesse há vinte e poucos anos atrás que a política era dessa forma eu talvez nunca tivesse entrado apesar do sonho de criança. Eu era papa-comício. Ainda menino, lembro quando tinha comício, e eu ficava ouvindo os discursos memoráveis de Joel Ferreira, Fábio Lucena e meu querido amigo Evandro Carreira.


Pensa em desistir?
Não posso desistir agora, por conta de ações covardes como essa. Foi uma luta muito grande para ganhar as eleições em Coari. Eu tive carro queimado, tive amigos presos, ganhamos com muita força e determinação. Tenho certeza que não conseguimos desenvolver o trabalho que quero para o município.


Como o senhor encontrou Coari?
Encontramos o município numa situação muito ruim, com muitas dívidas e o mar de lama de corrupção e pedofilia. Enfim, o município estava com muitas dificuldades e agora estamos restabelecendo a imagem da cidade com os trabalhos que temos realizado, tanto na zona rural quanto na cidade. Melhoramos na questão da saúde. Quando assumimos, as ruas estavam tomadas de lixo, sem asfalto, eram só buracos. As 11 unidades públicas de saúde estavam fechadas. Só funcionavam urgência e emergência do hospital. Retomamos o funcionamento de todos os postos, já inauguramos o CAPs (Centro de Apoio Psicosocial), que cuida das pessoas com transtornos mentais, e implantamos, também, a medicina tropical.


O projeto político da reeleição está mantido?
Mantemos. E, como eu disse, não poderia por conta de uma situação covarde dessa, eu mesmo me acovardar. Nós vamos à reeleição, se Deus quiser.


O senhor acredita em milagre?
Acredito muito em milagres porque tenho visto acontecerem alguns comigo mesmo. Esse é mais um. O médico que me atendeu, depois de ver a posição do tiro, disse que todo dia 6 eu deveria festejar meu aniversário, porque nasci de novo. Acredito em milagre e não tenho dúvida nenhuma de que estou vivo por conta das orações e rezas, que marcaram a semana de aniversário da cidade, quando reunimos evangélicos e católicos. Todos foram às ruas. Foi uma semana de bênçãos.


Pretende reforçar a segurança?
Sempre fui cobrado por amigos e família para ter mais cuidado com segurança. Não posso negar que relaxava um pouco. Nunca tive costume de andar com seguranças, e isso me causava um certo incômodo, mas devido a atitudes como essa é necessário que a gente procure ter mais cuidado. O atentado me fez ver que realmente tem pessoas capazes desse tipo de comportamento.


O senhor acredita que a Polícia pode chegar ao responsável pelo atentado?
Acho que a Polícia do nosso Estado tem condições, sim, de desvendar essa situação.


Quando o senhor volta a Coari?
Estou dependendo da alta médica e de prestar depoimento na polícia, marcado para hoje (domingo) ou amanhã (hoje). Vou ficar aqui à disposição da Polícia e dos médicos. Tendo alta, retorno para o município. Tenho amigos lá que já estão dando informações precisas nossas. Tem muitas pessoas lá orando e rezando. Não queremos aproveitar o momento para deixar todo mundo tenso. Queremos tranquilizar a todos. Graças a Deus, eu acredito que o pior já passou. Estou com dificuldade pra me movimentar, até ontem estava sangrando, veio um médico fez um tratamento e hoje está dolorido mas não houve sangramento. Logo, logo pretendo retornar ao município.


Tiros seriam de pistola 9 milímetros
Os tiros que atingiram a picape Hilux do prefeito Arnaldo Mitouso teriam sido disparados de uma pistola 9 milímetros, de uso exclusivo das Forças Armadas. A revelação é de fontes da polícia que estão investigando o crime. A perícia realizada no veículo revelou também que não foram sete e sim nove tiros disparados na direção do banco do carona em que estava o prefeito. Desde o dia do ocorrido, uma viatura da Rondas Ostensivas Cândido Mariano (Rocam) mantém escolta em frente à casa do prefeito, localizada num condomínio na Torquato Tapajós.
Já se encontram em poder da polícia as imagens das câmeras de segurança do Centro Integrado de Operações de Segurança (Ciops), que mostram a movimentação tanto do momento em que o veículo do prefeito era atacado, quanto dos momentos anteriores em que o carro passou a ser seguido. A suspeita é de que o veículo seja um Pálio, de cor azul escura.
O titular da Secretaria Executiva de Inteligência, da Polícia Civil, Thomaz Vasconcelos, informou ontem que um trabalho conjunto entre as polícias está sendo desenvolvido na tentativa de chegar até os responsáveis pelo atentado. O delegado-geral da Polícia Civil, Mário César Nunes, não quis adiantar detalhes das investigações, mas assegurou que os trabalhos estão sendo desenvolvidos em conjunto também pela 2ª Sessão (Inteligência) da Polícia Militar do Amazonas e Divisão de Repressão ao Crime Organizado (DRCO), da Polícia Civil.


Segurança em Coari preocupa
O prefeito Arnaldo Mitouso informou ontem que já vinha tentado, há algum tempo, contato com o governador do Estado Omar Aziz para tratar da questão da segurança no Município de Coari. “A cidade vem enfrentando uma onda de assaltos, quase que todos os dias, e já tinha procurado conversar com o governador, mas talvez por conta dos inúmeros compromissos dele não tenha tido essa oportunidade ainda”, afirmou o prefeito.
Mitouso afirmou que recentemente reuniu vários segmentos da sociedade para discutir alternativas de solução para o problema. “Já estava tudo pronto pra trazer essa reivindicação ao governador. Tomei, inclusive, a atitude de reformar o ginásio para entregar à Polícia Militar, considerando que, no governo passado, a polícia estava num cubículo sem nenhum estímulo para trabalhar”, lembrou, acrescentando que pretende agora uma reunião com o governador para pedir dele que haja uma investigação aprofundada para desvendar a autoria e os possíveis mandantes do atentado.
“Eu estou contando a história aqui, mas, de repente, outros não podem ter a mesma sorte que eu tive”, afirmou, comentando que condenou veementemente esse tipo de atitude. A bala que atingiu Mitouso ultrapassou o pescoço dele. De acordo com os médicos do Hospital João Lúcio, para onde foi levado, por alguns milímetros, o projétil não atingiu a veia aorta do prefeito, levando-o à morte. A bala também poderia tê-lo deixado paralítico.

Fonte: ACritica

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